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Porque atiramos moedas às fontes

Pergunte a alguém porque atira uma moeda a uma fonte e obterá uma versão de «é só por sorte». É uma resposta muito recente. Durante quase toda a história deste gesto, as pessoas sabiam exactamente a quem pagavam e o que esperavam em troca.

A água era a fronteira

Em toda a Europa pré-histórica e antiga, a água que sai do chão — nascentes, poços, o começo de um rio — era tida por uma abertura. O que ali vinha à superfície vinha de outro lado, e a esse outro lado chegava-se pondo lá qualquer coisa.

A arqueologia é inequívoca, e não se limita a moedas. De turfeiras, lagos e rios do norte da Europa recuperaram-se armas, caldeirões, joias e restos humanos. O Tamisa devolveu ourivesaria cerimonial em quantidade. Não são perdas. As espadas não caem aos rios formando padrões.

O traço essencial é que a oferenda não pode ser recuperada. Uma dádiva que se pode retomar não é dádiva; é exibição. A água, ao contrário de um altar, não nos deixa mudar de ideias.

Chega a moeda e torna tudo fácil

A cunhagem transformou uma prática cara numa prática diária. Deixou de ser preciso sacrificar uma espada: podia dar-se uma fracção de um salário diário de passagem, e repetir amanhã.

A escala que isso produziu vê-se em Bath, cuja nascente sagrada de Sulis Minerva rendeu mais de doze mil moedas romanas, e no poço de Coventina, na Muralha de Adriano, com um depósito comparável. Não são vestígios de grandes cerimónias: são os trocos acumulados de gente comum que passava, ao longo de quatrocentos anos.

As tabuinhas de chumbo encontradas junto às moedas de Bath dizem-nos o que se pedia. Esmagadoramente: a devolução do que foi roubado e o castigo do ladrão. Nada do desejo moderno lá aparece. Era um requerimento, mais próximo de uma queixa do que de soprar velas.

Nascentes, santos e sobrevivência

Com a difusão do cristianismo, as nascentes sagradas foram menos destruídas do que reatribuídas. A nascente de uma deusa passou a ser a nascente de um santo, as virtudes curativas transitaram, e os peregrinos continuaram a chegar. Poços santos na Irlanda, na Grã-Bretanha e na Bretanha ainda trazem as duas camadas, por vezes à vista.

Ao longo dos séculos a oferenda foi-se adelgaçando em algo semi-desligado da religião: um trapo atado a um ramo num clootie well, um alfinete atirado a um poço dos desejos, uma moeda cravada na casca de uma árvore — a Grã-Bretanha tem árvores de moedas, troncos caídos crivados de trocos, a que ainda hoje se acrescenta.

Quando a prática chegou à Fontana di Trevi, a divindade tinha desaparecido por completo. O que restou foi a estrutura: dádiva irreversível, água inatingível, pedido calado.

Para onde vai o dinheiro hoje

O gesto moderno ganhou algo que faltava ao antigo: um beneficiário com nome. As moedas de Trevi vão para a Cáritas e financiam comida e alojamento em Roma, bem acima de um milhão de euros por ano. Fontes de centros comerciais, aeroportos e jardins zoológicos de todo o mundo são esvaziadas regularmente a favor de instituições.

Tornou-se uma justificação discreta de todo o hábito. O desejo pode funcionar ou não; a cantina funciona de certeza. É a defesa mais racional que se pode fazer de atirar dinheiro à água, e por acaso é verdadeira.

Explica também porque retirar as moedas é tratado como furto e não como recuperação. Uma vez na água, o dinheiro pertence àquilo para que a água serve.

Então é superstição?

Quase todos os que o fazem dizem não acreditar que funcione, e quase todos o fazem na mesma. É essa distância a parte interessante.

O que o ritual entrega com segurança não é o resultado mas o acto: um momento em que se nomeia algo que se quer, se paga por isso um preço simbólico, e se pára. Isso vale uma moeda, esteja alguém a ouvir ou não, e é a razão pela qual um gesto com dois mil anos sobreviveu à perda dos seus deuses sem perder nada da sua popularidade.

As perguntas que nos fazem

Que idade tem a tradição de atirar moedas à água?
As oferendas a nascentes e rios antecedem por completo a moeda: armas e trabalhos em metal foram depositados na água em toda a Europa pré-histórica. A moeda tornou a prática barata e rotineira, e sítios romanos como Bath conservaram dezenas de milhares.
Alguma vez teve que ver com sorte?
Não originalmente. Os testemunhos escritos de Bath mostram pedidos a uma deusa, sobretudo por causa de furtos. A sorte é o que restou depois de a divindade ser abandonada.
O que acontece hoje às moedas?
Na maioria dos grandes sítios são recolhidas e entregues a instituições de solidariedade. As de Trevi vão para a Cáritas de Roma; muitas fontes públicas noutros lugares seguem acordos semelhantes. Retirá-las é em geral tratado como furto.
  • Tradições de desejos pelo mundo

    Escrito, posto a flutuar, queimado, atado, partido, soprado ou atirado. Um percurso pelo mesmo acto em doze formas diferentes.

  • Roma, Itália

    A Fontana di Trevi, Roma

    A fonte dos desejos mais famosa do mundo, e a que fixou as regras que todos copiam: mão direita, ombro esquerdo, de costas para a água.

  • Florença, Itália

    Il Porcellino, Florença

    Um javali de bronze com o focinho polido por quatro séculos de mãos, e um truque de moeda que só conta se o dinheiro passar a grelha.

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